«Se constituímos um partido, o nosso partido é, assim, o partido dos mortos. Não o partido dos mortos debruçado sobre o túmulo do Rei, como no romance célebre de Melchior de Vogüé o velho marquês de Kerassakene; mas o partido dos mortos reconhecendo e proclamando esse aforismo elementar de sociologia que «tudo o que é repousa sobre tudo o que foi».
Porque tudo o que é repousa sobre tudo o que foi, é para nós tradição não um ponto fixo no passado. É antes, e conforme a revisão científica do nosso tempo, «a permanência na continuidade», como já atrás fica dito. Não nos podemos furtar à aceitação das regras sociais em que os nossos antepassados viveram, adaptando-as e corrigindo-as segundo as necessidades e as tendências reais da época em que vivemos.
(…)Proclamemo-lo bem alto, numa hora em que as forças negativas da sociedade julgam chegado o seu triunfo! É antes a sua derrota que se aproxima, porque se aproxima o advento daqueles que, na expressão iluminada de Renan, tornaram o partido dos avós contra o partido dos seus pais.
A guerra não acabou – a guerra continua!
É uma guerra espiritual, de que sairão vitoriosos os direitos de Deus, e, mais nobre e invencível, a autoridade esquecida do Sangue. Quem não nasceu para vítima, nasceu para a apóstolo.
Apóstolos da Esperança, não é só o Portugal – Maior que nós havemos de restituir à sua grandeza perdida. É o Portugal cristão – o Portugal cuja vocação histórica foi o dilatar a Fé e o Império.
São calcinados e cheios de redes infinitas os caminhos que nos conduzem lá. Mas nem por isso o desfalecimento consegue aninhar-se-nos no peito. só os Mortos marcham connosco, ressuscitados da treva inferior do sepulcro pelos nossos votos de libertação.
Silêncio!
Numa vigília atenta passam os cavaleiros da Grey.
É Portugal que passa com eles para uma outra manhã de Ourique que já se anuncia tão Gloriosa como a primeira!».
António Sardinha, A Prol do Comum
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