Nação e patria

«Contra o “princípio das nacionalidades”, filho legítimo da revolução, carece de se prevenir o verdadeiro nacionalismo que, naturalmente orgânico, é por isso antidemocrático e anti-individualista. Assumindo na Europa um especial sentido contrarrevolucionário, não visa senão a emancipar as velhas pátrias europeias das abstrações tirânicas do Liberalismo, restituindo-as, pelo regresso a si próprias, à posse plena do génio ancestral. (…)

Mas a transformação profunda que se opera no pensamento europeu ecoou depressa em Portugal, ajudando a reacção sentimental, que se desenhava, latente, no ânimo da colectividade. 

O nosso instinto nacionalista, saído da resistência secular da nacionalidade portuguesa, não possuía uma ‘teoria’, uma ‘doutrina’, porque se conduzir e nortear. 

Sofríamos as consequências da pior das invasões, da invasão das ideias deformadoras do cosmopolitismo de 89, com o seu cortejo de indizíveis fobias contra tudo que, lançando raízes no Passado, tirasse o seu alento, ou da Igreja que conformara a unidade espiritual da nação, ou da Realeza que a mantivera e consolidara. 

Do antigo patriotismo, tão antigo e tão essencial como os motivos basilares da nossa existência imediata, nada restaria em breve, tornando-se a Pátria como simples expressão geográfica ou territorial, e, quebrado todo o elo de gerações entre si, Portugal como a soma aritmética dos cidadãos do censo eleitoral.

Uma escravização mais dura que a perda política da soberania nos humilhava e sufocava, visto importar uma perda maior – a perda da soberania moral, em que se radica a autonomia da consciência do indivíduo e a perfeita liberdade se fundamenta. Mais atrevido e nefasto que o ‘estrangeiro do exterior’, a nossa triste condição de autóctones arriscava-se debaixo da ditadura implacável do ‘estrangeiro do interior’, – inimigo de quanto se referisse às gloriosas instituições que haviam insuflado o ser à nossa sociedade e, deste modo, só empenhado em destruir o que dentro de nós subsistisse de fidelidade ao sangue dos avós e à continuidade imortal da Tradição».

António Sardinha, A Prol do Comum

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