A lição do Brasil

«Sempre que um português haja de escrever do Brasil, se esse português for nacionalista e se ao seu nacionalismo o coordena um prudente e mesurado tradicionalismo, logo à flor da pena lhe acudirão razões que mais o confirmam na doutrina em que a sua inteligência se repousa. (…)

Igualmente se infere que um nacionalista português, ao ocupar-se do Brasil, encontre no exemplo que lhe oferece a florescente nação de além-Atlântico argumentos decisivos para se fortalecer na sua fé e redobrar o ardor no seu apostolado.

E porquê? Porque, precisamente, o Brasil, – criação inconfundível do génio de Portugal, seu filho primogénito, seu morgado e esplendido continuador, resultou como nacionalidade da acção concorde das duas forças tradicionais que fizeram a nossa Pátria e que o nosso nacionalismo se impôs defender e reabilitar: – a Igreja e a Realeza. (…)

Quer pelo passado, nas suas raízes profundamente lusitanas, como pela função que Deus lhe reserva num amanhã já próximo e resplandecente, o Brasil associa-se, conjuga-se à sorte de Portugal, porque, prolongando-nos no tempo e no espaço, é na sua maravilhosa adolescência o nosso natural complemento.

Desviámos nós, com as Descobertas, da bacia do Mediterrâneo para a do Atlântico o eixo da civilização. Mas ficaria infrutífero para nós o esforço gigantesco da nossa raça, se o Atlântico não se volvesse, com o espraiar dos anos e das gerações, num verdadeiro «mare-nostrum». (…)

Ao lado da espontânea aproximação que apertará cada vez mais Portugal ao Brasil, formando os dois países um bloco indestrutível, – o bloco do «lusitanismo», o conceito envolvente do «hispanismo» revela-se-nos como forçosa conclusão, abrangendo consigo, além de Espanha, nossa irmã, vinte nacionalidades que ela intrepidamente semeou por entre perigos e arrojos através da selva americana. (…)».

António Sardinha, A Prol do Comum

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