«Que concluir de todo o exposto? Concluímos que se a Monarquia não é autóctone na América, também não o é a democracia, tomada no seu significado de «plagiato pernicioso», que o uruguaiano Luís Alberto de Herrera lhe confere. Cumpre, pois, aos Estados hispano-Americanos pelo presidencialismo e pela constituição de uma segunda câmara, recrutada na representação moral e social, corrigir a tara da democracia que os infama e que lhes perturba o funcionamento regular das instituições. O Brasil, corrigindo a herança que recebeu do Império, terá um modelo a imitar e a aperfeiçoar. E assim se estenderá, debaixo de tal aspecto, que se o ‘nacionalismo brasileiro’ não é monárquico, como o nacionalismo português, carece de ser, pelo menos, abertamente contrarrevolucionário.
Contrarrevolucionário em política, tenderá a rectificar as lutas dos partidos que enfraquecem a acção directora do Estado proibindo-lhe todo e qualquer objectivo de expansão e de hegemonia exterior. Como o Brasil se dirige pela aspiração legítima de se afirmar como potência mundial (vidé os trabalhos e estudos de Elísio de Carvalho), decerto que o não obceca a miragem dum imperialismo, montado apenas no jogo das forças materiais. A defesa do tipo de civilização em que o Brasil se insere e que tão nobremente enriqueceu, condu-lo, sobretudo, para um campo de natureza espiritual.
Contra o bloco anglo-norte-americano, instalado no Atlântico, o bloco das nacionalidades hispânicas tarde ou cedo se constituirá, se o desejo de viver as anima e se deseja que se acerque a hora de se libertarem da tutela de Washington. (…)
Restauradores das admiráveis responsabilidades do seu passado, o Brasil e Portugal acordam desta forma para o ressurgimento do conceito perdido de Cristandade. Não há nacionalismo nenhum que se confine e seque na sua contemplação narcisista.
Como desfecho lógico, tende a ampliar-se e a fixar-se numa expressão mais humana e mais duradoura de universalismo. Adversários, tanto Portugal como o Brasil, do cosmopolitismo ideológico da Revolução, o universalismo que a ambos se impõe é o da contrarrevolução.
Estendamos as mãos por cima do Oceano, – e a Lusitanidade, emancipada dos mitos ignóbeis que a prostituíram, há-de sorrir de novo com a frescura singela e doce daquelas rosas que os marinheiros do Senhor Infante chamaram «rosas de Santa Maria», ao colhê-las, enternecidos, para lá do Bojador!».
António Sardinha, A Prol do Comum
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